O custo da negação da política

O custo da negação da política

As eleições de 2018 fizeram vitoriosos candidatos que negavam a política. Como tudo (ou quase tudo) é política, a própria negação é uma tática política. Não é fenômeno novo, diga-se de passagem, e acompanhamos de camarote sua gradual instalação. Testemunhamos o enfraquecimento dos sindicatos, a perda de credibilidade dos partidos políticos, o aumento da desconfiança nas instituições da República e, principalmente, a condenação das alianças programáticas e pragmáticas que, desde a redemocratização, se mostraram fundamentais para garantir governabilidade. A política se tornou imenso palavrão. Pelo menos dois efeitos foram bastante visíveis: o aumento da alienação eleitoral e a vitória dos famosos “outsiders”, inclusive daqueles que não eram outsiders, mas que conseguiram vender essa imagem durante as campanhas eleitorais.

A maravilha é que até a negação da política encontra, na própria política, seu principal adversário, e o custo é alto. Não foi preciso aguardar muito tempo para que a fatura começasse a ser cobrada. O enfraquecimento dos sindicatos pode ter forte relação com o aumento da informalidade; a falta de fé nos partidos políticos cede espaço para que movimentos ditos “apartidários” cumpram papel semelhante, garantindo força institucional através do aluguel de legendas; a desconfiança nas instituições da República, sobretudo no Executivo e Legislativo, permitiram que o sistema de Justiça passasse a agir com perigoso e inusual protagonismo; e a crítica às alianças partidárias produziram uma situação de anomia em que projetos de Estado foram esquecidos em prol de sujeitos que passaram a representar, eles próprios, a força motriz de supostas mudanças que naturalmente não vieram. As cobranças começam a se acumular e essas pessoas, que surfaram garbosamente na onda da crise, descobriram que a taxa de juros é altíssima.

Há vários casos, mas nenhum parece tão exemplar como o que envolve o fracasso do governador do Rio de Janeiro, o paulista Wilson Witzel. Em 2018, deixou a magistratura para disputar as eleições. Era ilustre desconhecido. Filiou-se ao Partido Social Cristão (PSC), legenda pequena e de pouquíssima densidade eleitoral. Ao longo da campanha, contudo, seu crescimento se deu em progressão geométrica. A fórmula que fez Witzel vencedor foi simples e eficaz: por um lado, associou-se a Bolsonaro e garantiu expressiva votação nas regiões dominadas por milícias; por outro lado, fez uso da velha retórica de combate à violência que, no Rio de Janeiro, elege bandidos desde a década de 1980, como Moreira Franco, que prometia acabar com a criminalidade após seis meses no cargo.

Witzel teve um primeiro ano de governo relativamente estável, já que extermínio de pobres não é algo que comove nem as instituições, nem parte expressiva do eleitorado. O governador aproveitou a exposição midiática sempre que pode, sedento por criar a base política que nunca teve. Também deixou claro, em vários momentos, seu desejo de alçar voos mais altos e concorrer, tão logo possível, à presidência da República. Muitas ações esdrúxulas acompanharam sua breve carreira. Recorde-se, por exemplo, que Witzel mandou confeccionar uma faixa azul e branca com o brasão do Rio de Janeiro para usar em sua posse, algo que não consta no protocolo oficial, mas que parecia boa ideia pois simulava o ato de transferência da faixa verde e amarela usada na presidência da República. Witzel também ficou marcado por sua descida cinematográfica de helicóptero na Ponte Rio-Niterói, comemorando efusivamente a morte do sequestrador ao lado de atiradores do Batalhão de Operações Especiais da PM. Nada disso, porém, parecia ameaçar seu reinado, até que veio a pandemia.

O governador do Estado do Rio de Janeiro, assim como praticamente todos os governadores, adotou a política de distanciamento social, contrariando Jair Bolsonaro. Mais do que isso, Witzel identificou nesse antagonismo a oportunidade de ganhar expressão política nacional, concorrendo com João Dória pelo posto de adversário conservador e reacionário do presidente da República. A criatura investiu suas forças numa luta visceral contra o criador. Dá-se, porém, que Bolsonaro possui recursos que Witzel não dispõe. No dia 26 de maio, a Polícia Federal deflagrou a Operação Placebo, que investiga irregularidades na compra de respiradores. Secretários de Saúde começaram a cair em velocidade impressionante desde que foram cumpridos mandatos de busca e apreensão de celulares e computadores nas residências do governador e sua esposa. Witzel acusou perseguição política no primeiro momento. Tentou dobrar a aposta e ampliar ainda mais o antagonismo com Bolsonaro, mas quando tentou distensionar a relação com o presidente já era tarde. A fatura chegou.

Como disse no início, a negação da política encontra na própria política seu principal adversário. Mais de 10 pedidos de impeachment foram enviados à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Apenas 5 dos 70 deputados estaduais da base governista mantinha o apoio ao governador. Em 10 de Junho, a ALERJ admitiu o pedido de impeachment feito pelos deputados Luiz Paulo e Lucinha (PSDB). Teve início a sessão virtual que contou com a presença de quase todos os deputados, exceto Rosenverg Reis (MDB). O resultado foi assustador até para os padrões brasileiros: os 69 parlamentares, da esquerda à extrema-direita, foram unânimes em aprovar a instauração do processo. Não houve um aliado, um único aliado que tenha defendido o governador. 69 x 0. Witzel foi eleito sem base popular, com escasso suporte partidário, sem histórico de luta política pelo povo fluminense, sem nada. Tinha apenas planos ousados, absoluta falta de pudor e uma verve incontida por sangue negro. Caso não haja uma virada surpreendente – o que é pouquíssimo provável – Witzel deve sair do cargo como chegou, sem eira nem beira, deixando para atrás uma carreira política que começou e terminou de maneira meteórica. E, se as acusações forem comprovadas, tende a ser encarcerado como os últimos governadores do Rio de Janeiro, acompanhando Anthony Garotinho, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cabral e tantos outros políticos que ele tanto condenou a partir de um discurso hipócrita e moralista. Caso fosse um filme, sairíamos do cinema maldizendo o diretor pelo sensacionalismo e obviedade do enredo.

Witzel é apenas um exemplo. Há outros, inclusive, mais expressivos. De todo modo, essa atmosfera de negação da política, insuflada pelas Jornadas de Junho de 2013 e alimentada pelo golpe de Estado de 2016, começa a mostrar sinais robustos de fraqueza. Em breve tende a caducar. Seu fracasso, contudo, não se confunde com a potencial reabilitação da política. O Brasil nos ensinou que nada é ruim o suficiente que não possa piorar. No entanto, se nossa atual crise é fruto da negação da política, não parece existir solução viável que não passe por sua recuperação. O desafio que se impõe ao campo democrático é qualificar esse debate e trabalhar para que a política volte a ocupar o lugar que nunca deveria ter deixado vacante.

asmoraes

Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História (PPGH) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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