AINDA SOBRE A QUEDA DAS ESTÁTUAS

AINDA SOBRE A QUEDA DAS ESTÁTUAS

O Parthenon é um dos edifícios mais conhecidos do mundo. Foi construído por iniciativa de Péricles no século V a.C. e se tornou símbolo da democracia ateniense. Em seu interior, estátuas de Fídias compunham o ambiente, sobretudo uma feita de ouro e marfim que representava a deusa Athená. Durante o Império Bizantino se tornou igreja cristã. É provável que a grande estátua da deusa tenha sido levada a Constantinopla por volta do século V de nossa era. Em 1456, com o domínio Otomano, deixou de ser igreja para se tornar mesquita. Também foi usado como fortificação por ocasião de guerras. Em 1687, quando venezianos invadiram Atenas, o Pathernon se tornou paiol de pólvora. Um tiro de canhão o atingiu e a explosão destruiu parte importante do edifício. Após longo período de abandono, em 1801, o embaixador britânico em Constantinopla, Lord Elgin, retirou uma série de esculturas da Acrópole, incluindo o famoso frontão, que hoje está sob a guarda do British Museum, em Londres. Apenas a partir de 1832, com a independência da Grécia, o monumento se tornou objeto de cuidado e permanente restauração. É raro alguém visitar Atenas e não encontrar o Parthenon cercado de andaimes.

O Parthenon permanece lá. Poderia ter desaparecido, sobretudo por ocasião da explosão em 26 de setembro de 1687, mas não desapareceu. Outros edifícios, estátuas e cidades não tiveram a mesma sorte na luta pela sobrevivência material. A razão é simples: nada construído pelo homem é vocacionado à eternidade. O tempo é potência suficientemente poderosa para gerar desgastes e corrosões. A natureza, com furacões, terremotos, tempestades ou incêndios pode, também, levar monumentos à desaparição. Os próprios homens, por razões muitas, podem provocar não apenas o fim de construções famosas, mas tomá-las para si e alterar seu uso original. Foi o que aconteceu quando o templo de Athená se tornou igreja, mesquita, paiol de pólvora e, mais recentemente, patrimônio histórico, objeto de pesquisa e interesse turístico. Os historiadores estão cientes de que todos esses movimentos não se dão à revelia da História, mas em função dela. Além disso, se algo deixa de existir, a despeito do luto pela perda, há que se ter a dimensão de que o novo precisa de terreno fértil para florescer. O Parthenon, por exemplo, foi erigido no lugar de antigo templo destruído em 480 a.C..

Essa é uma perspectiva que não se pode perder de vista com as recentes derrubadas de estátuas de antigos traficantes de negros escravizados ou de genocidas como Leopoldo II da Bélgica, responsável por exterminar, com requintes de crueldade, cerca de 10 milhões de africanos, em sua maioria congoleses. Foram seres humanos que erigiram essas estátuas. Eles julgavam essas personalidades dignas de elogio. As relações de poder e condições materiais permitiram não apenas sua construção e instalação, mas a permanência no espaço público ao longo de todos esses anos. Também foram seres humanos que derrubaram-nas. São novos tempos, novas questões e novas relações de poder. Se alguém, em algum momento, julgou oportuno erigi-las, outras pessoas, em outros momentos, julgaram oportuno derrubá-las. Quem defende a permanência das estátuas precisa esclarecer as razões: concorda com as relações de poder que permitem homenagens a facínoras ou escravocratas? Pensa que toda ação humana é digna de preservação? Considera que o valor histórico das estátuas é algo que vale por si? Não vê problema em conviver com a incômoda semântica do monumento? Acredita que revoltas populares não são meios legítimos para alterar o espaço público?

Muitas coisas foram ditas ao longo dessa polêmica. Não faltou quem se acorrentasse a estátuas ameaçadas para protegê-las. Outros defenderam discussões amplas e soluções institucionais para lidar com a política da memória. Sugeriu-se, por exemplo, a instalação de placas informativas para aclarar a biografia do homenageado. Também propuseram a construção de museus para escondê-las da vista sem precisar destruí-las; houve também quem sustentasse a necessidade de destruição e posterior monumentalização dos destroços. Muitos observaram o risco de que essas ações se tornem recorrentes e indiscriminadas; que comecem destruindo estátuas de escravocratas e terminem, por voluntarismo ou oportunismo, derrubando monumentos famosos que ofendem grupos outros que, incentivados pelo movimento negro, decidam adotar a mesma atitude. Houve também quem dissesse que esse tipo de discussão deveria ser feita por especialistas em patrimônio histórico, e não por nós, reles historiadores, que não conquistaram o alvará para discutir temas que não pesquisam periodicamente.

Por um lado, não me parece que a destruição de monumentos seja algo que precise ou deva ser necessariamente incentivado; por outro lado, não me sinto capaz de criticar quem, de modo espontâneo ou planejado, decidiu destruí-las. Gostaria muito que o Parthenon tivesse permanecido intocado por 2500 anos. Queria visitar Atenas e não encontrar andaimes. Queria poder admirar o belíssimo frontão que foi sequestrado pelos ingleses no século XIX. Queria, também, que as estátuas de Fídias pudessem estar no lugar original. Nada disso, porém, é possível. Não posso fazer com que a História se curve à minha vontade, sobretudo porque é difícil avaliar o que conforma minha vontade: presença idealizada de um passado? Sensação de perda provocada pelos eventos históricos que quase levaram o Parthenon à destruição? Desprezo pelas ações do tempo? Antiquarismo inocente? Confesso que não sei. Posso duvidar de tudo, inclusive das razões da minha vontade; só não posso duvidar que essa vontade não advém daquilo que o Parthenon foi, mas daquilo que ele é.

É a incompletude, a perda, as várias restaurações e formas de sobrevivências que despertam nossos afetos pelos monumentos históricos. Portanto, se é a própria História que define minha vontade, jamais poderia desejar que minha vontade me convertesse em um sujeito fora da História. Também não posso fazer da História o escudo de proteção contra os eventos (históricos) que promovem a desaparição ou surgimento de monumentos. Por fim, preocupa-me que historiadores, no afã de proteger monumentos, acabem por confundi-los com a História em si, como se essas estátuas fossem a síntese de um passado que se tornaria indisponível num átimo, só porque um grupo foi lá e a jogou no fundo de um rio.

O debate não é novo, sabemos bem. Parte importante dos argumentos já vêm sendo debatido pela historiografia há bom tempo. No entanto, não são tão frequentes as ocasiões em que esses temas ganham o espaço público, sobretudo com essa intensidade e em nível global. Quando isso acontece, não basta que os historiadores e historiadoras se escudem na História numa tentativa desesperada de protegê-la, inclusive através de tecnicalidades que parecem esconder o fato de que somos, também, agentes políticos que podem e devem intervir no debate precisamente por causa da História. E aqui, como em toda democracia, a honestidade intelectual é componente indispensável para qualificar a discussão. Se nenhuma construção é inocente, eventuais destruições também não o são. Uma coisa é ver o Museu Nacional arder em chamas por negligência e falta de verbas do governo federal; outra coisa é ver a estátua de um traficante de escravos ser posta no chão por pessoas que protestam em função do assassinato covarde de George Floyd. É desonesto classificar destruições sem qualificá-las. As responsabilidades precisam, sim, ser discutidas.

De minha parte, não sinto qualquer simpatia por ruas com nomes de ditadores ou com estátuas que homenageiam assassinos. Se nego isso, enveredo por um caminho perigosíssimo. Também vale lembrar, caso tudo isso não tenha sido suficiente, que a destruição de alguns monumentos se tornaram mais célebres que sua construção, como a tomada da Bastilha (1789) ou o Muro de Berlim, construído a partir de 1961 e derrubado a partir de 1989. Queria muito que o Parthernon estivesse lá, intacto, tal como no tempo de Péricles, mas é uma vontade e nada mais. Nesse caso, o tempo é santo remédio. Contudo, para os passados que insistem em não passar, não há curativo que estanque a ferida, e se estátuas precisam cair, que caiam. Estátua não sente dor.

asmoraes

Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História (PPGH) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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