Messianismo evangélico: o caminho de Jesus a Bolsonaro (III)

Messianismo evangélico: o caminho de Jesus a Bolsonaro (III)

Acreditem: sempre que alguém ousa falar dos evangélicos, especialmente tecendo críticas, alguns deles reagem, apontando três falsos desvios lógicos.

O primeiro é a “generalização”. Sabe-se claramente que a maioria absoluta dos evangélicos se alinha politicamente há muito tempo ao que há de mais abjeto. No caso de Bolsonaro, último “escolhido” para ser beneficiário das esperanças dos crentes, ele foi acolhido junto a um combo explosivo. Abraçaram o Jair e veio junto o Queiroz, as milícias, a rachadinha, o laranjal, os funcionários fantasmas, o desvio de combustível, o apoio ao novo coronavírus, os 50 mil mortos até aqui e tudo mais. Mesmo diante dessa realidade majoritária, sempre aparecem alguns pleiteando que aquela igreja antiga, vazia e “antibolsonarista”, em que um pastor já idoso ministra um culto a Deus junto com três membros, é a prova de que o argumento geral da análise dos evangélicos está equivocado. Não! Se todas as vezes tivermos que apontar as minúsculas exceções para ter o direito de falar do quadro geral, isso será como se, ao falar do sistema solar, tivéssemos que dissertar sobre cada grão de areia. A minha resposta para isso? Eu prefiro ficar com aquela máxima atribuída a Cícero: exceptio probat regulam.

O segundo é a acusação de que o movimento evangélico brasileiro não foi lido direito caso quem ouse fazê-lo não cite tudo a partir de um passado remotíssimo, colocando no mesmo balaio movimentos difusos e desconexos, que se unem apenas por causa do uso do nome “protestante”. Um paralelo que ilustra a correção deste “desvio”: Antônio Cândido teve a coragem de dizer que a literatura verdadeiramente brasileira surgiu apenas com o romantismo, no século XIX. Ele viu continuidade e brasilidade nos movimentos literários que o sucederam; por outro lado, ele observou que os movimentos literários anteriores eram portugueses, não brasileiros. Aplico o mesmo raciocínio para identificar a matriz do evangelicalismo que hoje vige no Brasil: ele não é herdeiro dos calvinistas que aportaram no Rio de Janeiro em 1557; nem dos holandeses em Recife em 1595, Almeirim em 1623, Salvador em 1624-1625, e Olinda e Recife em 1630-1654. Tampouco é herdeiro dos anglicanos que vieram para o Brasil após a chegada da família real; ou dos luteranos que chegaram em Nova Friburgo em 1824, ou que congregavam com calvinistas no Rio em 1827. Tampouco os evangélicos brasileiros, em sua maioria, herdaram suas “qualidades” dos luteranos alemães que estabeleceram-se em São Leopoldo. Apenas uma perspectiva laudatória desconectada da realidade pensará uma coisa dessas. Foram os evangélicos que chegaram ao Brasil, muitos provenientes da Old School americana, inspirados pelos grandes reavivamentos, derrotados na Guerra de Secessão, escravocratas, simpáticos ao pietismo e negligentes quanto à crítica social é que podem explicar aquilo que a maioria esmagadora dos evangélicos de hoje são. Sim: a matriz cultural do evangelicalismo brasileiro está no século XIX.

O terceiro desvio lógico é a recusa dos protestantes históricos de se identificarem com os pentecostais. E dos pentecostais de se identificarem com os neopentecostais. De fato, isso vale para a liturgia, para a teologia prática, para a eclesiologia. Mas em relação à política brasileira, esses movimentos que são teologicamente tão diferentes se comportam de forma muito homogênea. O que ilustra isso é que eles formaram, juntos e em maioria esmagadora (maioria cada vez mais desidratada), o maior grupo de apoio a Bolsonaro. Por outro lado, os protestantes progressistas, ecumênicos, inclusivos, praticamente unânimes na oposição ao governo, mal conseguiriam encher, com muito esforço, um Maracanã, caso viessem de todo o país para fazer um evento de oposição ao governo. Seus pronunciamentos lúcidos não representam nem a décima parte dos evangélicos brasileiros.

Enfim: quem deu o tom da maioria representativa do movimento evangélico brasileiro, e o fez desde sempre (pre)ocupado com etiquetas (em vez das grandes questões éticas), foram as igrejas cujas origens remontam às atividades missionárias do século XIX. Elas trouxeram ao Brasil Robert Kalley, que rapidamente se tornou amigo de D. Pedro II e de muitos na corte.

A igreja evangélica brasileira, com as poucas exceções de sempre, também se alinhou de forma imediata aos militares em 1889. No dia seguinte ao golpe militar que instalou a República, o editorial do jornal “Imprensa Evangélica” louvou o golpe porque por meio deste foi “realizada a reforma mais radical sem deixar perceber a mínima alteração na ordem pública, e no sossego da nação”.

Na Era Vargas, apesar de o catolicismo estar fortemente associado ao Integralismo, o pastor Eurico Menezes não só participou de uma grande reunião do grupo em Niterói em setembro de 1936, como ameaçou nesta o governador Juraci Magalhães, caso ele continuasse a perseguir os integralistas”. Na ocasião, ele citou o mote bíblico da época, análogo ao slogan bíblico bolsonarista “a verdade vos libertará”: “Se Deus é por nós (integralistas) quem será contra nós?”. Não houve mais tantos evangélicos integralistas porque Plínio Salgado, líder do movimento, desejava unidade nacional com homogeneidade religiosa (=catolicismo).

Em 1964, mesmo com a resistência de alguns evangélicos, a maioria das denominações protestantes não só apoiou o golpe militar como promoveu jejum, oração e denúncias contra pastores e membros junto ao regime para evitar que o Brasil se tornasse um “país comunista”. Os evangélicos apoiaram, em sua maioria, a ditadura militar, com tortura e tudo, até o seu final.

Por que essa tendência de sempre se alinhar a movimentos golpistas, ignorar violências e torturas, apoiar reacionários, ignorando que o cristianismo é, em suas origens, marginal e crítico aos poderes constituídos de seu tempo.

Mais ainda: por que essa tendência de ser contra grandes causas de transformação do país, ao mesmo tempo em que se dá apoio a causas antiprogressistas? O que moveu e move esse “coar o camelo e engolir o mosquito?”

Por que ser contra o aborto e não mover uma palha contra o assassinato de crianças e/ou negras por policiais? Por que essa tendência de ser contra os homossexuais e não mover uma palha contra a masculinidade tóxica e agressora? Por que defender Israel contra o racismo e chamar qualquer movimento de defesa de negros e negras contra o racismo de “racismo reverso” e “divisão do brasileiros”?

A resposta é simples: porque, em sua história, o movimento evangélico brasileiro é herdeiro do que houve (e há) de pior entre os evangélicos do mundo. Por isso, a Escola Dominical não ensina cidadania; a brutal desigualdade de renda quase nunca é mencionada nos púlpitos; e messianismos totalitários são endossados por quem prometera ter “um só Senhor”. É preciso refazer as bases do movimento evangélico brasileiro.

Brian Kibuuka

Professor de História Antiga e Medieval do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

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