TRINTA MIL NÃO É UM NUMERO QUALQUER, MUITO MENOS INUMERÁVEL

TRINTA MIL NÃO É UM NUMERO QUALQUER, MUITO MENOS INUMERÁVEL

Por Beatriz Vieira, Edmilson Barros e Maria Eduarda Kersting

Trinta mil mortes. Três vezes mil mortes. Dez vezes 3 mil pessoas mortas. Uma geração inteira.

Nos primeiros dias de junho, o Brasil atingiu a casa dos trinta mil mortos (sim, 30.000) de COVID-19, sabendo-se que este número é baseado em dados subnotificados. Se o país levou 52 dias para sair de uma para dez mil mortes (entre 18 de março e 9 de maio), foram apenas 33 dias para saltar de dez mil para quarenta mil mortos, registrados no dia 11 de maio (https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias).

Mas não se trata apenas do coronavirus, uma vez que a transmissão viral que caracteriza a pandemia poderia ter sido dirimida com medidas de isolamento social, histórica e internacionalmente reconhecidas como mais eficazes em casos de pandemias. Salvo alguns poucos municípios que não seguiram as (in)determinações do governo federal, a situação tornou-se absolutamente calamitosa no Brasil, com previsão de um aumento exponencial da propagação da doença até atingir números inacreditáveis. Nessa mesma semana, o prefeito do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que anunciava o retorno à “normalidade” e a reabertura do comércio, visando à “flexibilização das atividades econômicas”, comprava também containers-frigoríficos para acomodar os corpos mortos (http://bandnewsfmrio.com.br/editorias-detalhes, 2/6/2020).

Não, não se trata de coincidência, mas de prática necropolítica. Conforme mostram estudos científicos de todas as áreas, uma epidemia ou pandemia não existe apenas em razão de um fator biológico, mas se deve ao cruzamento disso com fatores políticos, econômicos e culturais, aí incluídas as diferenças de classe, de acesso à educação e serviços de saúde, a violência de gênero, o racismo estrutural, o desemprego e o crescente trabalho precarizado. Reduzir um evento pandêmico à disseminação da doença por um vírus não ajuda a compreender a contaminação em massa, cuja prevenção dependeria também de medidas adequadas por parte dos poderes públicos para proteção (e não exposição) da população, condições sanitárias adequadas nas moradias, boa alimentação para o fortalecimento imunológico, hábitos de higiene e solidariedade social por parte da população.

Contudo, o que se vê predominantemente por aqui não é isso. Na violenta história do Brasil, uma camada a mais se sobrepõe, com requintes de perversidade e psicopatia quase inomináveis… A violência passada e cotidiana ao longo de séculos não deve servir para a naturalização do horror e a indiferença diante do sofrimento. Ao contrário, é de suma importância para a vitalidade social que a capacidade de indignação se mantenha acesa. Voltemos então aos trinta mil, um montante que não pode ser tratado como um número fortuito. São vidas. É igualmente o número mencionado por Jair Bolsonaro quando deputado, ao declarar em entrevista ao um programa de TV que: “Me desculpa, mas através do voto, você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada. Você só vai mudar, infelizmente, no dia ’nós partimos’ [sic] para uma guerra civil. E fazendo o trabalho que o Regime Militar não fez: matando uns trinta mil, começando por FHC, não deixar pra fora não, matando. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra, morre inocentes [sic,sic,sic].” (https://www.youtube.com/watch?v=WWOWsUiddhg).

Tudo bem???? Assim, com esse descaso pelas vidas humanas, o atual presidente já se referia a um quantitativo de mortes que corresponde a dez vezes o número de vítimas do episódio de 11 de setembro de 2001, o ataque às Torres Gêmeas em Nova York, o que mudou toda a base de abordagem da política externa norte americana do governo George Bush. Não podemos naturalizar nem uma morte, que dirá trinta mil! Pois já temos os trinta mil mortos que a Ditadura “errou” em não produzir. Nessa necropolítica covarde, os mais de trinta mil começaram a incomodar.

Assustadora é a constatação de que, para o atual governo federal e seus apoiadores, trinta mil mortos não bastam, acham talvez pouco, visto que num momento de curva ascendente em sua escalada exponencial, crescem também de forma contundente as pressões para a flexibilização do isolamento social, apontando para um cenário de catástrofe sanitária, com o esgotamento do sistema de saúde, o que pode multiplicar muitas vezes a taxa de letalidade de uma doença ainda não totalmente conhecida. A falta de um leito de enfermaria pode agravar um caso que potencialmente não levaria a óbito, se os cuidados médicos fossem tomados a tempo, porém pode acarretar o pior devido à falta de tais cuidados. Em casos mais graves que necessitam de um leito de UTI, a situação torna-se mais crítica ainda. Como já declarou o ex-ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, esse vírus não só ataca as pessoas, ele ataca todo o Sistema de Saúde – fato que nenhuma outra pandemia anterior tinha nos apresentado de forma tão clara. E de forma também tão clara a Covid-19 nos coloca a questão crucial agora a ser respondida: quanto vale uma vida? E cem? E mil? E trinta mil? E cem mil? Qual será o limite?

O futuro se configura incerto; uma paisagem distópica se desenha no horizonte, na qual percebemos fortes matizes de caos e desordem, convulsão social, desespero, uma situação de crise sanitária, política, econômica e social. Será esse o cenário desejado pelo atual governo? Há um caráter eugenista nas afirmações do presidente. Percebe-se subjacentemente a ideia de que, caso não se faça nada, a sociedade “se livrará dos menos fortes”, os idosos, portadores de comorbidades, o que pode significar – para a extrema direita no poder – uma população expurgada de uma parcela não tão apta como aqueles que possuem histórico de atleta, que terão “só uma gripezinha ou um resfriadinho”. Essa visão se naturaliza no discurso do presidente Jair Bolsonaro quando afirma que morrer é o destino de todos nós. Mas será que dessa forma? Pela negligência estatal? Não! Não podemos permitir essa banalização. O Darwinismo Social já foi abandonado por falta de sustentáculo científico há dezenas de anos, não podemos permitir tal retrocesso. Já temos mais de quarenta mil vítimas do descaso e da inação de um governo que, no meio de uma pandemia, troca dois ministros da saúde e empossa interinamente um general, que de saúde entende muito pouco, ditando um protocolo de tratamento sem a baliza de profissionais de saúde, e tentando mudar a bula da cloroquina. O mundo realmente está de cabeça para baixo, e não é conforme a bela pintura do uruguaio Torres Garcia…

Pelos números atuais de cerca de seiscentos mil (sim, 600.000) contaminados e considerando-se uma subnotificação de, digamos, 10 vezes, chegaremos a um total de seis milhões (sim, 6.000.000) de pessoas que já adquiriram o vírus. Isto é apenas 3 % da população brasileira, o que nos joga na cara uma verdade atroz: estamos apenas no início dessa guerra. Nem ganhamos a primeira batalha e já estamos lançando nossos soldados para o fogo cruzado do mercado de trabalho, porém sem armas eficientes, adotando a estratégia equivocada, que não poderá resultar em outra coisa que não o genocídio. Quem responderá por esse genocídio? Permitiremos que seja levada adiante essa não política pública de enfrentamento da pandemia por parte do Governo Federal? A situação se apresenta tão catastrófica que infelizmente atingiremos bem mais de trinta ou quarenta mil mortos. Suportaremos tal cifra?

Ora, dirão alguns, os números são o que menos importa quando estamos tratando de mortes. Ora, ora, responderemos, os números muito importam, porque “dentro dos números”, assim como “dentro dos conceitos”, tem gente, há vidas – nunca é demais repetir – que se multiplicam em sofrimento pelo número de familiares e amigos de cada pessoa que falece, numa tragédia que, em grande parte, poderia ser evitada. E para além da coincidência, é relevante lembrar, trinta mil foi também o número de desaparecidos políticos na Argentina durante o período da ditadura militar, por cuja memória este país até hoje se embate. Não podemos negar que há uma aversão por parte dos familiares aos números, quando contam desaparecidos ou mortos. A menção a cifras em referência a essas vidas muito frequentemente não soa de agrado aos familiares que buscam desaparecidos, principalmente pelo caráter único e insubstituível de cada um desses indivíduos.

Mas ainda que haja uma questão em relação a esses números, na Argentina existe uma particularidade, pois a dimensão quantitativa dessas vidas supera o que seria uma soma e alcança uma identidade coletiva, com uma cifra que não se refere a um número, sim ao nome de um grupo, “los 30.000”. Assassinados e desaparecidos, configuram toda uma geração e é difícil encontrar os recursos de linguagem que deem conta de representar o que isso significa. (ver também o artigo de Gabriel GATTI na revista Confines, v.1, ago. 2006). “Los 30.000 nos faltan a todos” é uma frase utilizada por familiares e coletivos de direitos humanos que lutam por verdade, memória e justiça até os dias de hoje na Argentina. Essa é uma forma de coletivizar uma dor e um luto que a princípio pareceria individual, familiar. Sabemos, porém, ao menos desde Aristóteles, que o ser humano é zoon polítikon, animal social e político por natureza (com a devida contradição dos termos), logo, não há indivíduo desvinculado de seu meio social, que o atravessa com múltiplos vetores, econômicos, políticos, existenciais, geográficos, temporais…

Assim, os mortos fazem falta a todos nós, por isso é muito importante dar a essa dor uma dimensão coletiva, pois é uma dor de toda a sociedade. No quadro Del 1 al 30.000, pintado pelo argentino Guillermo Kuitca em 1980, ainda na vigência da ditadura, o artista faz um duplo movimento de individualizar e simultaneamente coletivizar esses desaparecidos mediante números: Kuitca não pinta o número trinta mil, e sim, vai pintando individualmente cada número, literalmente do número um, passando pelo dois, três, quatro… até o trinta mil. De longe a pintura parece uma pasta abstrata, mas ao nos aproximarmos é possível enxergar os pequenos números individualizados (ver, ao final, reprodução da obra e link para um vídeo). Deste modo, esse número não é só uma cifra, pouco “pessoal” ou não individualizada, ele faz referência a um grupo, é um número que carrega uma dimensão coletiva, e nessa dinâmica reside a força de sua significação e de seu impacto social.

Já no Brasil… poderíamos recomendar o livro Incidente em Antares, do gaúcho Érico Veríssimo, ou o filme franco-belga-senegalês Atlantique, dirigido por Mati Diop (disponível na Netflix), não estivessem eles acima do nível dos fatos, ou seja, da iniciativa de recontagem do número total de casos e de mortos pela Covid-19 por parte do Ministério da Saúde, por ordem do presidente Jair Bolsonaro, visando à ocultação dos dados totalizados, sob a alegação de ser o melhor para o país. O que seria o pior?

Ainda que essas vidas sejam inumeráveis – como mostra o projeto do artista Edson Pavoni, no Instagram (@inumeraiveismemorial), voltado à criação de um memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus – , nós queremos nossos números, eles nos importam. Mais inumerável seria não contá-los.

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O seguinte vídeo mostra a diferença ótica entre o perto e o longe para o receptor:
https://www.youtube.com/watch?v=FDkAD43n47M

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OBS: Ao fecharmos este texto, foram noticiadas 44.118 óbitos por COVID-19, segundo levantamento feito pelo consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde. (Cf. https://oglobo.globo.com/…/brasil-tem-891556-casos-de-covid…)

Credito da Imagem
Guillermo Kuitca, Del 1 al 30000, 1980
Nanquim sobre tela
100 x 200 cm
Coleção Mary e Jaime Kuitca
Buenos Aires, Argentina

Beatriz Vieira é professora do Departamento de História da UERJ, Edmilson Barros é ator e graduando do Departamento de História da UERJ, Maria Eduarda Kersting é mestranda em Artes do Programa de Pós Graduação em Arte e Cultura Contemporânea da UERJ

Daniel Pinha

Professor do Departamento de História da UERJ

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