Messianismo evangélico: o caminho de Jesus a Bolsonaro (II)

Messianismo evangélico: o caminho de Jesus a Bolsonaro (II)

Obrigado, pastores, por mostrarem ser correta a minha interpretação

Entre o texto anterior, publicado na semana passada (5 de junho de 2020), e este texto, uma comitiva de pastores evangélicos foi a Brasília, ao Palácio Alvorada. Ali, naquele espaço público e que deveria ser laico, esses pastores estenderam as mãos sobre a cabeça do presidente da República, e abençoaram aquele que disse outrora que a ditadura deveria ter matado uns trinta mil. Já ultrapassamos, neste ponto, os quarenta mil mortos por COVID-19, fora a subnotificação. O que, afinal, queriam abençoar? A continuação dessa política de gestão de crise de saúde? Ainda que a resposta dada por eles seja um “não” seguido de um “mas”, os atos respondem, eloquentemente: sim!

Pastores antiproféticos e o profetismo bíblico

Muitas e muitas vezes no registro em vídeo da “reunião de oração” no Palácio da Alvorada, os pastores dizem que vão profetizar “sobre a nação”. Ah, como isso me dá uma saudade dos profetas bíblicos, de Elias a João Batista! Elias orou para que chovesse e assim o povo faminto pudesse plantar, colher e ter o que comer, opondo-se à Reforma Agrária às avessas, oportunista, do rei Acabe, que tomara a vinha de Nabote depois de Jezabel provocar a sua morte (1 Reis 21).

Que saudade de João Batista, que orou para que o povo rompesse com a maldade herodiana, vestia pele de camelo não curtida (“pêlo de camelo”), e tinha o bucho cheio de mel silvestre e gafanhotos, pois se negava a se vestir e se alimentar com os produtos da injusta exploração do trabalho de curtidores e agricultores (Marcos 1.6-7).

Diante do exemplo dos profetas bíblicos, ouso perguntar: alguma vez os pastores que hoje se mostram demasiadamente bolsonaristas se posicionaram com o mesmo vigor em favor das vítimas de racismo, violência sexual, transfobia, homofobia, a ponto de pegar um avião no meio de uma pandemia para dar apoio, ler palavras bonitas da Bíblia, fazer uma oração? Quando alguém os viu denunciar fortemente a injustiça que promove a brutal desigualdade de renda no Brasil? Alguém os viu falar, ao menos, contra a violência que vitimou Jenifer Cilene Gomes, Kauan Peixoto, Kauã Rozário, Kauê Ribeiro dos Santos, Ágatha Vitória Sales Félix, Kethelen Umbelino de Oliveira Gomes, João Pedro Mattos?

Ouso ainda perguntar: em que restaurante esses pastores almoçaram e/ou jantaram em sua ação missionário-profético-pastoral no Planalto Central? Quem pagou a conta? Será que os dízimos e ofertas das ovelhas-gado serviram para pagar a conta do repasto? Desconfio que eles não tenham comido arroz, feijão e ovo, com tubaína. Cloroquina preventiva? Talvez…

Falta nesses pastores o compromisso com a agenda em prol da justiça social. Então, para a pergunta “eles se importam?”, a resposta é: caso se importem, eles não atuam de modo a se destacar entre os que lutam pela justiça. Isso acontece porque eles não querem favorecer o avanço do “comunismo” no Brasil. A cabeça deles ainda está na Guerra Fria.

Eles estão presos a um passado ultrapassado, a um mundo ideológico em que o Muro de Berlim ainda está de pé, em que o “irmão André” (An van der Bijl) ainda está contrabandeando Bíblias todas as vezes que atravessa a Cortina de Ferro. O resultado dessa mentalidade apegada ao atraso é a confusão dos grandes temas da ética cristã com o “comunismo”, incluindo nesse qualquer pleito por justiça em favor dos empobrecidos, explorados, agredidos e assassinados. O grande vácuo moral resultante, causado por tamanho descaso, é preenchido com a defesa da etiqueta cristã fiscalizadora de genitálias, da família tradicional e do fim da corrupção. Os pastores-orantes em favor de Bolsonaro nos deram uma clara manifestação do antiprofetismo, ou do “profetismo” antibíblico. Quem quiser saber o que deve fazer para agir como um profeta da Bíblia, basta observar o que eles fizeram e fazem e agir de forma contrária.

Antipatia diante da morte: indício de uma “psicopatia” espiritual

Há mais um agravante: mais de quarenta mil mortos e esses pastores não emitiram na ocasião nenhuma nota, vídeo, pregação ou tuíte para consolar os enlutados. Eles chegaram a mencionar as dificuldades com a malha aérea para ir ao encontro do presidente, e não esclareceram que a restrição de voos se dá por causa da grave crise sanitária. Quem assistir à transmissão dessa “reunião de oração” verá que eles entremeiam as leituras bíblicas, encômios e súplicas com a subscrição dos temas da agenda política bolsonarista: chamar de baderna os protestos dos manifestantes contrários ao governo, denunciar a sede de poder político dos adversários, apelar à necessidade de harmonia entre os poderes (uma denúncia velada contra o Supremo Tribunal Federal e Congresso Nacional). Eles usaram ainda vários textos bíblicos messiânicos para se referir ao presidente. R. R. Soares chegou a chamar Bolsonaro, conhecido pelos seus palavrões e pelo exercício cotidiano de uma sapiência própria dos estultos, até mesmo de “pastor dos brasileiros”, entre outros epítetos laudatórios.

Ouvir o que esses pastores que foram “orar pelo Brasil” falaram permite constatar a ausência absoluta de qualquer uma das preocupações que afligem as vítimas da pandemia provocada pelo novo coronavírus – falta de respiradores, de leitos, de refrigeradores para os corpos, de lugar para enterrar os mortos, a impossibilidade de fazer funerais, a falta de equipamentos de proteção para profissionais de saúde, a alta mortalidade de enfermeiros, de médicos, de negros, de pobres… Alguma palavra, algum esboço de preocupação com as centenas de milhares de infectados? Nada, apenas uma exigência inócua para que nos lembremos dos recuperados! Recuperados não pressionam o sistema de saúde. Infectados, sim. E já não há onde enterrar os mortos, cujo número só cresce…

Se o cientificismo diletante de Caio de Arruda Botelho, vulgo Coppolla, tornou-o capaz de, em vídeo, comparar o número de mortos por COVID-19 aos mortos por engasgamento nos EUA para minimizar a crise de saúde e assim isentar de críticas Bolsonaro, tudo é (infelizmente) possível. Os pastores que participaram da “reunião de oração” fizeram a sua parte para o avanço da insensatez, lançando mão de uma estratégia mais sofisticada, que não passa pelo crivo da ciência, visto pertencer ao domínio da fé.

Os pastores que foram orar por Bolsonaro submeteram religiosa e discursivamente a realidade complexa a um esquema em que todos nós somos colocados no tempo do entre: de um lado, temos o passado terrível; de outro, o futuro glorioso proporcionado por Deus por meio de Bolsonaro, futuro que reserva uma prosperidade jamais vista na história. E no presente, a oração e as palavras desses pastores. É de uma inteligência sutil o argumento: não é necessário prová-lo, visto ser um dado da fé. Ao mesmo tempo, aceitar o argumento implica em redimensionar todo o passado a algo que precisa ser superado, por causa das várias facetas da corrupção, problema eleito como o único que de fato importa na história do Brasil. Assim, massifica-se no imaginário popular as atividades anticorrupção como a única régua para julgamento da eficiência do Estado. Mas o objetivo final da “profecia” é desencadear a esperança, atrelando-a à manutenção de Bolsonaro. E se o governo de Bolsonaro terminar mal, como tudo indica, em um futuro próximo ou remoto? É só mudar a promessa, visto que a esperança proclamada conta com a fé na natureza divina do discurso do pastor. Esses mesmos se deixaram registrar dizendo algo semelhante para Figueiredo, Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer. E quando não falaram, é porque não puderam – eles nem recebidos foram.

A repetição enfadonha por pastores de que Bolsonaro é a centelha que acende a chama do avivamento religioso, da mudança política, e da prosperidade econômica do Brasil me faz lembrar de um velho texto: “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas que entre vós profetizam e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do SENHOR. Dizem continuamente aos que me desprezam: O SENHOR disse: Paz tereis; e a qualquer que anda segundo a dureza do seu coração dizem: Não virá mal sobre vós” (Jeremias 23.16-17).

O anúncio de um tempo maravilhoso e transformador para o Brasil, feito por evangélicos ao mesmo tempo em que uma pandemia mata milhares de brasileiros, revela uma antipatia solerte, que visa não desagradar o presidente com aquilo que ele descarta como urgência. É a subscrição da escolha do executivo da República Federativa do Brasil de abandonar os cuidados com a saúde pública, priorizando distribuição de armas e munições, de remédios não testados e o uso político das Forças Armadas e da Polícia Federal. Ao devotar apoio a esse antigoverno, contrariando as exigências da fé evangélica de respeito à Bíblia, que apresenta em suas páginas a clara exigência de justiça e priorização da vida, os pastores que assim atuam se enquadram em um triste caso de psicopatia espiritual. Eles simplesmente demonstram não se importar e são afetivamente doentes, incapazes de sentir compaixão e ter misericórdia.

Pulando Romanos 12, enganando(-se) diante de Romanos 13

Os pastores, que oraram sem usar máscaras no rosto diante de um presidente também desprotegido e desconfortável, fizeram com que as suas verdadeiras intenções – estar perto do poder – estivessem devidamente mascaradas sob o véu da “oração”. E a oração específica pelos enlutados? Nenhuma. Agindo assim, eles ignoraram o imperativo paulino que diz “chorai com os que choram” (Romanos 12.15) e pularam de um salto para a ironia paulina por eles mal lida: “todo homem esteja sujeito às autoridades superiores” (Romanos 13.1). Digo “ironia” porque Paulo escreveu em sua Carta aos Romanos que as autoridades constituídas por Deus punem os maus e louvam os bons.

A prática do César da época da Carta aos Romanos, quer fosse ele Cláudio (se datarmos a carta antes do ano 54), quer Nero, era o oposto disso. O texto é uma denúncia velada, um apelo inteligente para que os cristãos parassem de considerar as autoridades romanas autoridades constituídas por Deus.

Sim: Paulo está, na carta, tecendo críticas às autoridades que puniam os cristãos, operantes do bem, enquanto favoreciam cidadãos romanos perversos. Ele está denunciando de forma inteligente e cifrada as autoridades romanas que pleiteavam para si mesmas um status divino, mas evidentemente não o tinham, visto que elas descumpriam a práxis própria das autoridades constituídas por Deus.

Os pastores que repetem ad nauseam, como os pastores que oraram por Bolsonaro no dia 5 de junho, que devemos obedecer todas as autoridades independente do que elas façam ou exijam, ou não entenderam a ironia de Paulo; ou a leem proposital, conveniente e interesseiramente como mandamento, subvertendo o efeito da ironia.

Parece que pular Romanos 12 e ler Romanos 13 de forma tão incisiva e inconsulta deixa claro que estamos diante da segunda alternativa.

Sola Scriptura nas intenções, solipsismo na base das ações

Há líderes evangélicos que apregoam solenemente sola Scriptura para informar o seu respeito à Bíblia, enquanto forjam uma maneira de ler a Bíblia com o propósito de dar alguma aura de legitimidade à sua sabujice interesseira. Muitos daqueles que não escolhem, no campo de possibilidades, o choro pelos mortos, o fazem porque os defuntos não têm verba de publicidade para sites e grupos de comunicação evangélicos.

Os enlutados não estão podendo ir às igrejas para dar seus dízimos porque elas estão fechadas e por causa do desemprego crescente. Isso motiva líderes evangélicos inescrupulosos a cogitar que se as massas trabalhadoras não voltarem logo ao trabalho, ainda que se coloquem em risco de morte por causa da COVID-19, os valores dos dízimos depositados nas contas das igrejas serão cada vez menores. Eles estão certos. Mas é da natureza do movimento evangélico cuidar das pessoas, e não usar as pessoas.

A redução heteroprática da redenção ao perdão dos impostos, e não dos pecadores

Eu expliquei a primeira parte da equação: os mortos, os enlutados e os trabalhadores que contribuem com a Igreja. A segunda parte da equação nasce de uma limitação dos contribuintes diretos: eles não têm o poder de dar perdão para impostos devidos. O presidente também não tem, mas ele tem se mostrado capaz de pressionar as instituições.

Os pastores que foram até o presidente não demonstram se importar muito com a pandemia. O presidente também parece se importar menos com o vírus do que com agradar os empresários e fazer o que for necessário para fidelizar os evangélicos. Os empresários brasileiros, por sua vez, nunca foram socialmente engajados, via de regra, e querem o retorno da plena atividade econômica porque eles têm recursos para se tratar, e há no Brasil mão de obra barata, abundante e disponível, capaz de substituir os doentes e os mortos pela pandemia. Então, faz todo o sentido dizer que há uma macabra confluência de interesses entre os líderes evangélicos da religião de mercado, o empresariado brasileiro sem consciência social e o presidente da República. Esses três grupos desejam despudoradamente a realização de seus planos de poder político e/ou econômico.

As orações pelo presidente no Palácio do Planalto contaram com a ilustre participação de Silas Malafaia, dono de uma editora em recuperação judicial, a Central Gospel; de R. R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, que deve 144 milhões à União; e de Estevam Hernandes, líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, que deve 33 milhões à União. Diante dessas carências econômico-financeiras, é difícil acreditar que esse apoio mascarado de “oração pelas autoridades e pelo Brasil” seja motivado apenas pelo patriotismo. Há um cheiro de “amor ao dinheiro” no ar. Amor oculto, secreto, inconfessado, devidamente justificado diante dos evangélicos, da sociedade e de si mesmos pela ideia de pertencer a uma missão divina, que promove a recuperação de vidas. Os indícios do amor proibido é o gosto de muitos pastores pelo fausto, pela vida boa e confortável. Não há “voto de pobreza” possível para eles – eles devem, como ensina um dos pastores-orantes, Renê Terra Nova – estar no topo de uma cadeia de honra por mérito. Ele mesmo, Terra Nova, desenvolveu habilmente uma modalidade eclesiológica análoga ao marketing multinível, em que o produto vendido é religioso e simbólico. Mas o lucro é palpável em anéis, relógios, carros, casas.

Há ainda algo a se destacar: o descaso com a falta enorme que os impostos devidos por grandes igrejas fazem para que o Estado consiga cumprir as suas obrigações constitucionais. Mas esse descaso também é mascarado pela ideia de que o Estado só deve praticar anticorrupção. A inconsciência da função social dos tributos que as organizações devem pagar está, assim, aparentemente perdoada. As igrejas, que já são isentas de impostos como IRPJ, ICMS, IPTU e IPVA, quando ficam devendo ao Estado, devem FGTS, INSS, IRPF. Mas isso não é interpretado como “desobediência às autoridades”, claro.

Ao mesmo tempo, há, entre esses devedores de penico na mão em busca do perdão das dívidas fiscais, aqueles que afirmam não haver possibilidade de conciliar cristianismo com esquerda. Cabe destacar ainda que esquerda, socialismo e qualquer crítica a Bolsonaro cabe, hoje em dia, dentro da ampliação semântica do termo “comunismo” feita por eles. “Comunismo” é o novo diabo. A consequência teológica disso é que qualquer que não subscreva o capitalismo e a direita estará imediatamente excluído do ato redentor do Cristo. Se os evangélicos bolsonaristas continuarem medindo as suas crenças sagradas pela régua da extrema direita, será necessário a eles reescrever várias poesias cantadas nos hinários evangélicos. Os batistas, por exemplo, que frequentemente cantam em seus cultos o hino Aleluia (Cantor Cristão n. 198), terão urgentemente que o corrigir, colocando depois de “Cristo salva o pecador; aleluia! / Salva até por meio de um olhar!” alguma referência à possibilidade de Deus não salvar se o pecador estiver usando vermelho-“comunista”.

Torcida organizada e uniformizada, a necessidade dos evangélicos aliados do Coronavírus e o seu desmascaramento por meio das lições da história

A teatralização da fé dos evangélicos tem alto grau de previsibilidade, pois geralmente há poucos improvisos. Então, não me admira que os pastores da “reunião de oração” tenham ido de uniforme, composto de costumes azuis/escuros e gravatas variadas. A exceção foi Romildo Ribeiro Soares, que foi vestido de “técnico”, com o seu já famoso costume caqui. Todos portavam roupas de gala para entrar no campo e jogar o jogo do poder.

Como em uma partida de futebol de campo, os evangélicos que vão para a área do chefe do executivo entregar palavras abençoadoras pensando em qualquer benefício em relação às suas dívidas junto ao fisco estão em clara posição de impedimento. Ainda assim, há quem não apenas o faça, mas que eventualmente pleiteie em redes sociais a abertura das igrejas em meio a uma pandemia, algo análogo a tentar fazer um gol com a mesma mão que levantou para orar pelo mandatário. Mas o que importa? Líderes inescrupulosos sabem que se as igrejas não abrirem logo, aqueles que dão (mais) dinheiro mediante o estímulo proveniente da espetacularização da fé não vão contribuir tanto se apenas depositarem dinheiro na conta da igreja. Como os pastores das igrejas tipo franchising vão pagar os boletos, os seus pastores-auxiliares, os aluguéis e os funcionários, a não ser pela oração por um milagre ou mediante o apelo ao “retorno à normalidade”? Se os pastores, especialmente os dedicados ao ministério de cura divina, cressem em Deus mesmo, eles optariam, por coerência, pela primeira alternativa, e estariam orando nos hospitais e curando as pessoas, ou no mínimo reforçando as outras soluções miraculosas como a (Hidroxi-)Cloroquina, a Azitromicina, a Ivermectina e o alho cru. Como parecem não crer tanto assim, estão ao lado do presidente do Brasil, de Belarus, da Nicarágua e do Turcomenistão apoiando a livre ação do vírus que seguirá o propalado retorno à normalidade, como denunciou o jornal “comunista” The Washington Post.

A postura dos evangélicos em prol do vírus se explica por trás das intenções anunciadas para essa reunião de pastores em um ato ecumênico. Eles anunciaram que a intenção era “orar pelas autoridades e pelo povo”. Mas o verdadeiro sentido das ações deles está em algum lugar entre “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”, “quem tem boca (e ovelha-gado) vai a Roma” e “uma andorinha sozinha não faz verão”.

Cabe agora, porém, uma advertência. A chave para compreender essa subserviência de muitos evangélicos brasileiros ao poder e aos poderosos não está apenas na interseção de interesses comuns na encruzilhada da nossa crise sanitária atual. É possível abrir a porta que dá acesso ao sentido mais amplo da subserviência eventual de uma parcela significativa da Igreja Evangélica a qualquer mandatário do Estado Brasileiro (e não à Constituição, última e verdadeira autoridade da república) com a chave fornecida pela história do movimento evangélico no Brasil.

Para quem pensa que o problema é recente, é importante contar que houve evangélicos no Brasil desde o século XVI. Enquanto a Reforma Protestante estava em curso em Genebra e recebia a adesão do almirante Gaspar de Coligny, Henrique II da França foi convencido a financiar um empreendimento colonizatório no Brasil. Assim nasceu a França Antártica, uma colônia francesa instalada no Rio de Janeiro, liderada pelo vice-almirante da Bretanha Nicolau Durand de Villegaignon. As dificuldades com o primeiro grupo de colonos, composto por amigos de Villegaignon, mercenários e presidiários de Rouen, moveu Villegaignon a escrever para Calvino, líder da Igreja de Genebra, para que esse indicasse pessoas para comporem o grupo de colonos. A intenção era clara: que os calvinistas auxiliassem com a sua religião moralizante para reforçar o controle dos corpos, das intenções, das ações. Aliados do governante, eles deveriam, a seu favor, promover uma espiritualidade controladora.

Não foi por acaso que Calvino indicou o experiente pastor Pierre Richier; e junto com ele, o jovem estudante Guillaume Chartier. Sabedoria e força estavam unidos em seu trabalho conjunto. Com eles, viajaram mais 14 calvinistas: quatro deles eram carpinteiros, um trabalhava com couro, outro era ferreiro. O sapateiro, Jean de Léry, se tornou o cronista de muito do que se sabe da história. O alfaiate, André Lafon, junto com os calvinistas Jean du Bourdel, Matthieu Verneuill, Pierre Bourdon e Jacques Le Balleur foram, inclusive, autores da primeira confissão de fé protestante, a Confissão de Fé da Guanabara, de 8 de fevereiro de 1558, utilizada por Villegaignon para condená-los à morte.

Você não leu errado: morte! Diante da incapacidade de cumprir a tarefa de acalmar a todos com promessas de prosperidade, orações, estudos bíblicos, eles foram cobrados a entregar mais. Com o tempo, eles se mostraram incapazes de disciplinar o grupo de colonos que não atendia ao poder das armas de Villegaignon. Então, quando eles não tinham mais o “povo”, falharam em sua tarefa – manter a popularidade de cismado líder da colônia. Não havendo mais serventia, restou para eles duas alternativas: fugir ou enfrentar a ira – não do Estado, mas do governante que ocupava o poder.

Note bem: a França Antártica acabou. Sucumbiu no encontro com a diversidade circundante. Faliu diante da virulência do seu governante, Villegaignon. Mas antes de ambos, os protestantes é que se deram mal, com boa teologia e tudo. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Há passados que estão tão presentes que são premonitórios…

Brian Kibuuka

Professor de História Antiga e Medieval do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

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