Messianismo evangélico: o caminho de Jesus a Bolsonaro (I)

Messianismo evangélico: o caminho de Jesus a Bolsonaro (I)

O imaginário popular sobre o Messias Jesus é construído em torno da figura de um homem de paz, dotado de grande misericórdia e compaixão. Um Cristo apegado aos explorados, sofredor, bondoso, sem pecado. Jesus, de fato, se pronunciou contra a violência, em favor das vítimas e dos agentes da paz. Ele disse: “bem-aventurados os perseguidos”; “bem-aventurados os pacificadores”; “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”. 

A noção partilhada pelo senso comum de que o Jesus dos evangelhos é absolutamente bondoso gera expectativas naturais em relação aos evangélicos, aqueles que a si mesmos se identificam como seguidores de Jesus. Espera-se que eles sejam identificados pelo caráter pacífico de suas ações, por sua luta contra a injustiça, pela sua renúncia à violência. Espera-se que eles paguem, evangelicamente, o mal com o bem. 

As expectativas que sempre cercaram o movimento evangélico brasileiro provocaram um descompasso entre a sua imagem pública e o seu discurso, que podemos chamar de “teologia pública”. Os evangélicos foram constantemente julgados, não escutados. E quando escutados, eles não foram ouvidos com a devida atenção. As suas ideias políticas, por exemplo, foram muitas vezes negligenciadas em favor de imagens caricatas: Bíblia debaixo do braço, vestidos de terno e gravata rotos e descompostos em pleno verão, com pouca formação acadêmica e nenhuma noção de política. Os falsos estereótipos deixaram escapar muito da identidade social do movimento evangélico. E, especialmente, daquilo que os evangélicos pensam.

Mesmo as análises acadêmicas sobre os evangélicos constantemente flertaram com a ideia de que eles têm certa ingenuidade, sendo vítimas vulneráveis à ação de pastores exploradores. Poucos acreditaram que os valores do bolsonarismo coincidissem com os valores dos evangélicos. Esses eram e são muitas vezes tratados como recém-convertidos ao bolsonarismo; descrentes, porém, de sua inadequação democrática e de sua necropolítica.

Tende a soar absurda a ideia de que muitos evangélicos brasileiros, em sua maioria negros e pobres, seriam consciente, verdadeira e sinceramente favoráveis ao liberalismo econômico que inevitavelmente os empobrece; ao armamentismo que os mata; às ideias supremacistas que os excluem; à retórica da violência que os vitima. É como se eles fossem parte de um mundo previsível, em que o desmascaramento da alienação produziria uma consciência de classe, ainda que mínima. Mas grande parte dos evangélicos brasileiros sabem de sua condição e optaram por crer, além de decidirem ser o sustentáculo consciente do bolsonarismo, inclusive de seu ideário. Muitos deles contradizem, com as suas práticas, o Sermão da Montanha. Por quê? Porque eles estão mais ligados à sua própria história, identidade social e práxis teológico-comunitária do que ao Cristo dos evangelhos.

Os evangélicos são estudados há tempos, e ainda assim, eles surpreenderam – assustaram até – os que imaginavam que eles seriam permeáveis aos discursos da esquerda por serem majoritariamente pobres, negros, mulheres e moradores da periferia. Demorou para ficar patente que eles constituem um dos atores sociopolíticos emergentes após o colapso dos atores sociopolíticos tradicionais, aviltados pela subversão da democracia no golpe contra a presidente Dilma; pela precarização do devido processo legal por causa da prática de lawfare na Lava-Jato; e pela redução das exigências de ação do governo ao combate à corrupção. 

Se pensarmos o atual estado de coisas como uma tragédia cujo título certamente aludiria a algo como o povo contra a democracia, uma maioria evangélica necessariamente comporá o elenco, pois seguiu à risca o script redigido pela grande imprensa, políticos, empresários, mercado. Fê-lo porque o movimento evangélico, em sua trajetória histórica no Brasil, desde pelo menos o século XIX até hoje, ocupou muitas vezes o lugar de grupo acrítico às oligarquias. Nesta peça, o “Messias” Bolsonaro é o protagonista; e os evangélicos, coadjuvantes. Ambos atuam ao lado dos racistas e de outros grupos da alt-right brasileira, dos militares das três armas, das milícias e dos milicianos. Já entraram em cena, como figurantes, os parlamentares do centrão fisiológico. Uma participação especial é feita pelos empresários oportunistas, sustentáculo econômico-financeiro do bolsonarismo. Juntos, todos os atores bolsonaristas estão desafiando a democracia – esse é o enredo. Entre uma cena e outra, eles fazem as suas evoluções no cenário da república, pulando por cima dos cadáveres que tombam em meio a uma pandemia, enquanto golpeiam inimigos e abraçam amigos imaginários/inimagináveis: vírus chinês, (hidroxi)cloroquina, globalismo, movimentos sociais, ONGs, ambientalistas, antifascistas-“terroristas”, Trump, Steve Bannon. Olhando mais de perto a caracterização dos evangélicos, cabe a eles a encenação da bondade, do zelo pela “família tradicional”, enquanto clamam ao Deus ex machina que ressignifique as maldades bolsonaristas. Eles mesmos operam este maquinário cênico-dramático, rodando as engrenagens para fiscalizar as etiquetas: abrem bem os olhos para verem onde as pessoas colocam as suas genitálias, a ponto de vislumbrar a mamadeira de piroca invisível. Ao mesmo tempo, fecham os olhos para as grandes questões éticas brasileiras que os implicam: racismo, sexismo, xenofobia, desigualdade de renda. A identidade sociocultural dos evangélicos do Brasil torna grande parte deles permeável à extrema-direita.

Esse papel encenado pelos evangélicos não foi percebido com clareza nas eleições de 2018 porque eles foram negligenciados por muitos como uma força política poderosa, capaz de repetir em tempo bem menor, a serviço de Bolsonaro, o que as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) fizeram pelo petismo: saturar as camadas populares com as suas ideias políticas, as quais adquiriram um duradouro valor sacramental. As igrejas evangélicas, em sua maioria, foram e são as CEB’s do bolsonarismo. 

Essa dificuldade de percepção fica evidente em uma premissa falsa tomada por verdadeira: a ideia de que os benefícios econômicos e sociais do lulopetismo seriam suficientes para garantir a sua manutenção e apoio, apesar das denúncias de corrupção. Outra ilusão: imaginar que a propaganda midiática diuturna contra a corrupção e de exaltação à Operação Lava-Jato seria capaz de pavimentar um caminho de ascensão política dos rivais históricos do petismo por ela poupados, especialmente o PSDB. Isso não aconteceu, pois os atores políticos antagonistas sucumbiram com o petismo. E Bolsonaro, outrora coadjuvante, ocupou o vazio deixado pelos outros atores, literalmente sobre os ombros dos evangélicos. 

Subestimar que os evangélicos pudessem exercer um papel de destaque, ao mesmo tempo em que se minimizou o poder do deputado radical e desprovido de ideias políticas sólidas, facilitou a aliança entre ambos.  Este último, Bolsonaro, tinha as ideias; os primeiros, os evangélicos, os votos. A facada sofrida por Bolsonaro foi, não negamos, parte importante de sua eleição, mas não explica a manutenção de sua base de apoio até hoje. O antipetismo também ajudou a eleger Bolsonaro. Mas foi a capacidade do bolsonarismo de se identificar com valores caros para muitos evangélicos, em vez de se apegar à miragem do espectro estereotipado evangélico, que desencadeou uma mobilização evangélica a seu favor. Ilustra isso a diferença de votos entre Bolsonaro e Haddad nas últimas eleições, 10,76 milhões de votos, que quase coincidem com os 11 milhões de votos que Bolsonaro recebeu a mais que Haddad entre os evangélicos nas eleições presidenciais de 2018. Sim: o voto evangélico elegeu Bolsonaro.

A análise da história, da identidade social e da práxis teológico-comunitária dos evangélicos permitirá explicar porque um terço da população, composta majoritariamente por evangélicos, se identificou, confiou e continua confiando em um presidente que não alavancou a economia; que faz a pior gestão da crise de saúde entre as grandes democracias do mundo; e que foi surpreendido várias vezes em sua proverbial incapacidade de se expressar com o decoro devido, visto o cargo que ele ocupa. Os evangélicos e a sua vinculação religiosa a Bolsonaro explica muito da capacidade deste de reunir as pessoas em manifestações. O apoio evangélico é que viabiliza a eficácia do aparato de disparos de mensagens com fake news. A credulidade dos evangélicos e a sua moral estrita é um reforço ao apoio à subversão em curso nos ministérios, secretarias e autarquias federais. E, acima de tudo, a fé dos evangélicos bolsonaristas mais radicais converte os erros do Bolsonaro em desvios naturais de um ser humano, erros que dispensam identificação e confissão diante da aprovação do “conjunto da [santa] obra” bolsonarista.

As muitas ações do radicalismo bolsonarista são possíveis e passíveis de manutenção porque há um grupo fiel e numeroso de apoiadores. Os neonazistas, supremacistas e neofascistas que apoiam Bolsonaro são fidelíssimos, mas não são numerosos. Sim, são os evangélicos que reforçam as fileiras bolsonaristas e imprimem capilaridade ao bolsonarismo. O movimento evangélico brasileiro, em suas expressões majoritárias,  também empresta ao bolsonarismo a sua linguagem, parte de seus valores e até mesmo a sua natureza resiliente.

Há evangélicos que se relacionam com Bolsonaro religiosamente e, talvez, uma das virtudes mais celebradas das ciências humanas, especialmente da antropologia, da sociologia e das ciências políticas, seja um grande obstáculo para o mapeamento mais eficiente da natureza dessa conexão. As metodologias e teorias materialistas têm se mostrado insuficientes para, sozinhas, pegar no ar o pensamento religioso em seus meandros, uma vez que os seus símbolos e motivações supramateriais se concretizam de maneira difusa, sendo mais compreensíveis caso conheçamos e respeitemos a dinâmica da fé dos evangélicos. Isso ocorrerá apenas se nos destituirmos do preconceito contra os hermetismos, irracionalidades e os vários outros códigos pertencentes ao âmbito da religião evangélica, cuja motivação é proveniente da experiência religiosa, individual e/ou coletiva. 

É urgente e necessário elucidar como foi percorrido o caminho, pelos evangélicos que o trilharam, do messianismo crístico ao messianismo bolsonarista. Isso tornará possível explicar os evangélicos que leem o piedoso Sermão da Montanha no domingo de manhã, e conseguem transformar em rotina o abandono da misericórdia diante do coro “mito”, enquanto são tremuladas bandeiras neofascistas, neonazistas e supremacistas em manifestações de domingo à tarde, no meio de uma pandemia. E como é possível, ao fim do dia, no domingo à noite, que essas mesmas bocas que “xingaram” os rivais de “comunistas” e “confessaram” que “bandido bom é bandido morto”, se abram para louvar a Jesus, o Galileu crucificado como bandido, em um culto a ele. Tal enigma é que nos dispusemos a decifrar. Vamos juntos?

Brian Kibuuka

Professor de História Antiga e Medieval do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

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